
A sala era imaculada, como se de uma morgue do CSI se tratasse. Tudo estava impecávelmente arrumado, entre metaplans, quadros brancos, flip-charts e fotografias tiradas de momentos edílicos do "BBC Vida Selvagem". Lá dentro estava a equipa de gestão de produto da BMW. Uns tipos com o corte de cabelo em dia, com aspecto de quem calça umas luvas cirúrgicas antes de iniciar o acto do amor. Camisa salmão, gravata lilás, camisa bege, gravata jasmim, camisa amarela, gravata laranja...
Neste universo de eternos "pendants" do "pret-a-porter", alguém exclama: "BTT! - é isso, bicicletas de montanha. Vamos fazer um carro que tenha tantas velocidades quanto um bicicleta de montanha."
Experimentei a caixa de oito velocidades da BMW, num 320d, 525d, 640d e achei-a tão redundante que tenho a certeza que a sua génese aconteceu numa cena como a que atrás descrevi.
Oito velocidades, são velocidades a mais! As patilhas atrás do volante, então, não servem para nada. São tantos rapports, que passado um tempo já nem sabemos se havemos de premir a patilha esquerda ou a da direita; e mesmo quando imaginamos que somos o Alonso, durante uma travagem forte, são tantas mudanças que quando acabamos de reduzir, já falhámos a curva. Inútil. Como ter 250 canais por cabo, quando só queremos ouvir as notícias.
No outro dia experimentei um M6 e quando me disseram que a caixa era de sete velocidades, pensei de imediato "mais uma BTT". Enganei-me.
Formula Um - deve ter sido certamente daqui que veio a ideia da caixa de sete. Porquê? Porque de lá veio a ideia de criar aquele V10. Ou veio de lá ou então veio de Chernobyl, ou de outra qualquer central nuclear, porque aquilo tinha potência suficiente para alimentar toda a África subsariana.
É para traduzir o carácter, de um motor, que serve uma caixa de velocidades e não para funcionar como argumento de marketing. Aquele V10 é de tal forma assombroso nos altos regimes, que merece bem uma caixa que permita que o ponteiro ande sempre encostado ao redline. Um conjunto como deve ser, em que o motor é o artista principal e a caixa de velocidades é a partnaire, passando despercebida de forma natural, para não nos distraírmos do que realmente interessa, a condução.